13 outubro 2017
13 outubro 2017,
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Outro dia alguém me disse que pareço ter uma “habilidade para não demonstrar sentimentos ou então, finjo bem”.   Não é bem assim, as pessoas que vivem a vida com o coração são aquelas que não ocupam espaços, são construtoras de pontes habilidosas. Tampouco carregam vazios, porque são mestres das emoções mais completas, da humildade mais autêntica. Acho que é mais por aí. Prefiro me expor na autenticidade do que viver escamoteando sentimentos. Só que a maneira de demonstrar é com o coração, é a cumplicidade que não pode ser explicada com palavras, ou seja, sincronicidade.

Antes de nos preocuparmos também em encontrar pessoas autênticas, devemos nos preocupar em sermos este tipo de pessoa. As pessoas simples e transparente, que são capazes de mostrarem-se autenticas, refletirem o que realmente são, me motivam muito.

Se  aparecer alguém que realce a minha vida de maneira que eu sinta algo diferente, seja através do conhecimento, dos gestos, da simplicidade, do coração, eu não a deixo ir, a não ser que ela queira.

Não é fácil encontrar pessoas que realmente se conectem com nossa essência, com a nossa alma e tornem nossa vida mais fácil sem pedir nada em troca. É preciso cuidar delas como se fossem o maior dos tesouros, como o bem mais precioso, porque quem vive uma vida com o coração, somente pode oferecer honestidade e reciprocidade. Isso é verdadeiro para mim e acredito que eu seja assim.

Levar uma vida inteiramente com o coração não é fácil. Muitas vezes você é enganado, traído, decepcionado; mas e daí? Basta não querer mais esse tipo de troca injusta, isso nada muda na essência. Requer em primeiro lugar ter percorrido um longo trajeto interior para adquirir um autoconhecimento adequado. Somente assim conseguimos aceitar os demais e a nós mesmos.

Quem não aceita a si mesmo carrega frustrações e inseguranças dentro de si. Uma alma habitada por vários vazios não resolvidos somente é capaz de projetar nos demais seus próprios defeitos, suas próprias carências.

Não é fácil oferecer essa abertura, aquela sinceridade pela qual nos deixamos envolver, aquele olhar de quem sabe nos atender, de quem entende a linguagem da compreensão e dos pequenos detalhes.

Pessoas sinceras e autênticas “não vêm de fábrica”, não nascem com essa luz própria. Na verdade, muitas delas percorreram um longo caminho na vida onde aprenderam a unir seu interior, a crescer, a amadurecer as emoções, a sensatez e o entendimento. Isso acontece comigo e com outras pessoas que conheço, mas não para por aí. Ainda existe um longo caminho e acredito que seja infinito. O crescimento é permanente.

Num evento do qual participei sobre “Comunicação Não Violenta”, o palestrante disse que “falar hoje em dia sobre empatia virou moda”. Ele não está errado, mas a ótica é diferente. Talvez essa “moda” sejam pessoas aprendendo a viver com o coração. Isso é empatia.  A empatia é a melhor virtude que nosso cérebro social nos oferece. Eu sou capaz de reconhecer emoções nos demais porque, por outro lado, reconheço e administro de forma adequada as minhas próprias. Tomara que essa “moda” “pegue”!

Quem é capaz de oferecer essa abertura tão íntegra, onde o olhar não somente lê um rosto, mas vai mais além do físico, é capaz também de sentir em si mesmo o que o outro sofre, o que o outro vive. Este tipo de “conexão” tão excepcional aparece poucas vezes. Talvez tenhamos somente uma ou duas pessoas com estas características em nosso círculo social,  alguém que vive a vida com o coração.

Em certos casos, é mais fácil viver uma existência com uma venda nos olhos e o coração cheio de remendos, evitando sentir, nos protegendo de sentimentos dolorosos. De certo modo seria como seguir a famosa premissa “não sentir para não sofrer”. Mas podemos também crescer através da dor e, geralmente, saímos mais fortalecidos, com um melhor entendimento. Posso dizer que o verdadeiro conhecimento recai naquelas pessoas que sofreram em algum momento de sua vida, e souberam atuar com força, obtendo um aprendizado, tornando-se mais fortes. Porém, em certos casos, esta força interior não significa de forma alguma ser invulnerável à dor alheia.

Quem viveu algum acontecimento doloroso, seja uma perda, uma decepção ou qualquer fato traumático, é mais sensível às feridas do mundo, às emoções alheias. Seus olhares são mais sábios e mais hábeis na hora de pressentir, de notar, de perceber nas outras pessoas certas inquietações. Por outro lado, viver com o coração é sentir uma alta intensidade da dor alheia, simpatizando com aqueles que o rodeiam, isso não é fácil!

A vida vivida com o coração é mais intensa, mais pura e mais nobre, mas em certos momentos também dói. Existem falta de energia na troca, não ser entendido nas atitudes, etc. Não é tarefa salvar o mundo inteiro, não é obrigação curar mais corações que o nosso…

Tampouco podemos nos esquecer de que às vezes, não há melhor remédio que se sentir ouvido, atendido e compreendido. Por isso a psicoterapia funciona bem. “Dar ouvido” ao outro nos torna pleno na medida em que àquele que sofre, divide a sua dor. Isso conforta, acalenta, tranquiliza, “resolve”.

Se como dizem, o universo começa sempre em nós mesmos, a melhor forma de oferecer amor é começando pela nossa compreensão.

 

Helio Felippe

 

 

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